Sócrates, a Wikipedia, os Jornais e aquela coisa… o blog

Vários meios de comunicação dão hoje conta da alteração da biografia de José Sócrates socrates na wikipediana wikipedia por alguém ligado à rede com IP dos servidores do Governo. Inevitavelmente, e porque a história surgiu num blog, está muitíssimo bem documentada e não há maneira de o contornar (admitindo que haveria interesse) quase todos referem o blog zero de conduta como fonte da notícia.

O Público, na sua versão online, noticia que a informação “foi publicada no blogue colectivo de esquerda Zero de Conduta“. Embora esta seja uma edição online o Público não faz link para a fonte e nem sequer indica a morada do dito blogue (http://zerodeconduta.blogspot.com) - o que não é mais que quase todos os outros, mas muito pouco para um quality daily newspaper

O DN, na sua edição em papel (cópia online) foi mais longe e incluiu as urls da ferramenta e de endereços de páginas da wikipedia como http/pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_s%C3%B3crates - algo que faz muito pouco sentido atendendo à codificação utilizada para os caracteres acentuados. Já quanto chega ao blog o jornalista entendeu por suficiente reportar que O facto foi ontem avançado pelo blogue Zero de Conduta, no qual participa um assessor de imprensa do Bloco de Esquerda. Novamente sem url, em absoluto contraste com os vários endereços do wiki no artigo, e com a curiosidade de um assessor de imprensa do BE participar também do blog. Será o autor da entrada, Vasco Carvalho, o tal assessor, terá influenciado ou colaborado na escrita? Se não é, qual o sentido de tal adição, quando o jornalista que escreve é até co-autor de um blog… estará ele limitado pelas afiliações dos seus co-bloggers?

O Diário Digital e o Portugal Diário usam o DN como fonte do artigo e repetem boa parte da notícia anterior. Apesar de ambos apenas existirem online, e do artigo focar essencialmente sites de internet, nenhum deles se deu ao trabalho de criar qualquer valor para os seus visitantes através da links para os principais sites da história. Se o primeiro retirou as urls o segundo mantém a url do wikiscanner com a particularidade de ter sido colocado um espaço na url não vá algum leitor cair em tentação de copiar o endereço e deixar as páginas do jornal (passe com o rato sobre o link wikiscanner, sff).

O registo mais enigmático é o da TSF online: o artigo não lista qualquer link, mas tem na coluna lateral um link para a página de Sócrates na wikipedia. Efeito provável da edição a partir da notícia do DN e da falta de cuidado em preparar a notícia. Possivelmente, mais preguiça do que má vontade.

A Exame Informática não precisa de fontes para coisa alguma, e está tudo dito.

Por fim, o Tek Sapo linka a página principal do blog, o que lhe vai merecer uma atenção especial (já lá vamos), mas comete o erro de não apontar para a página da entrada. Há mais 2 links externos e os links com wikipedia e wikiscanner apontam para páginas internas com notícias, com a particularidade deste último link reproduzir o espaço que encontrei no Portugal Diário.

Com a notável excepção do TEK, todos os outros meios de comunicação que encontrei no google news ignoram, por acção ou omissão, o blog em causa. Não se trata de uma simples pista: o Vasco estudou a a ferramenta, foi procurar os IPs, reportou as mudanças, as reacções às mesmas (acusações de vandalismo) e preocupou-se em registar a informação com screenshots. O seu trabalho não deve nada a uma aturada investigação jornalística e sem o mesmo não haveria notícia.
Também não é caso único, como bem deve saber quem observa os blogs com atenção.

Daí que eu formule uma modesta proposta: vamos, nós bloggers, pagar-lhes na mesma moeda: ao citar os meios de comunicação online vamos inutilizar os links que lhes oferecemos. Como? Através desta simples tag nos links:
rel="nollow"
Exemplo:
< a href="http://site.pt" rel="nofollow" target="_blank" >Noticia< /a>
(para efeitos de publicação foram colocados espaços depois e antes dos sinais de menor e maior, respectivamente.)

O nofollow, que é utilizado na maioria dos comentários dos blogs, inutiliza os links nos motores de busca. Os motores de busca contam links como votos editoriais susceptíveis de influenciar o posicionamento das páginas nos resultados, excepto se o link incluir a tag nofollow. Dessa forma, ao ligar uma notícia num jornal, estamos a dar crédito ao autor, a fornecer valor aos visitantes e a negar ao site o nosso voto editorial para os motores de busca.

Foi o que eu fiz nesta entrada, ao usar nofollow em todos os links para sites de informação online com a óbvia excepção do TEK. Será o TEK um caso isolado ou haverá outras excepções?

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Comentários

23 Respostas para “Sócrates, a Wikipedia, os Jornais e aquela coisa… o blog”

  1. vasco carvalho a August 18th, 2007 5:24

    Antonio Dias,

    Obrigado por um dos poucos momentos de sobriedade nos ultimos dias e pela sua sintese, com a qual concordo na maioria dos pontos (acho que exagera no elogio ao post). E muito obrigado pela sugestão de nofollow, opção que ignorava. Julgo que o usarei daqui para a frente, com selectividade.

    Vasco

  2. João José a August 18th, 2007 12:49

    A imprensa tradicional não compreende que linkar acrescenta valor. Não se trata de nenhuma porta de saída mas sim de dar ao leitor uma visão muito mais abrangente da notícia.

  3. domelhor.net a August 18th, 2007 14:12

    Jornais continuam a ignorar blogs

    Quase todos meios de comunicao deram ontem destaque edio da pgina do PM a partir de computadores do governo. Ainda que quase todos os dados da historia sejam livremente servidos na entrada do blog que descobriu a historia nenhum jornal achou de interesse informar os seus leitores sobre a morada…

  4. JPG a August 18th, 2007 16:15

    Excelente análise a sua, nomeadamente pela destrinça que faz de quem cita e não cita, quem indica os links e quem não o faz… por sistema.
    A SIC Notícias, por exemplo, noticiou o assunto, citando o blog e mostrando imagens do post. E isto durante todo o dia de ontem, de hora a hora, e repetindo no canal aberto. Neste caso, compreende-se que não seja indicado o URL exacto da fonte: ninguém tem uma caneta à mão, para tomar nota de imediato, e - através do nome do blog ou site - é facílimo aceder aos sítios, via motor de busca.
    Mas os media online teriam (têm) outras obrigações que, de resto, fazem parte não apenas dos respectivos manuais de estilo, como do mais elementar senso comum… para já não dizer boa educação e regras de urbanidade.
    Como diz no seu post, aquele trabalho de investigação não deve nada a uma aturada investigação jornalística e sem o mesmo não haveria notícia. Cada vez mais se inverte a relação ou o fluxo de informação entre os media tradicionais e os virtuais. Será talvez por isso que os tradicionais ocultam, por sistema, que grande parte das suas fontes são… os blogs; ou seja, reconhecem implicitamente - pela obliteração deliberada - que estão a ser ultrapassados.
    Não sei, se bem que compreenda perfeitamente, se pagar-lhes na mesma moeda será boa política. Presumo que, mais tarde ou mais cedo, até por força da lei (e da razão, que pode tardar mas nunca falha), os bloggers poderão exigir reciprocidade de tratamento… já que eles próprios citam sempre e devidamente as fontes, jornais online incluídos.

  5. João Pedro Pereira a August 18th, 2007 16:22

    Caro António,

    Como autor do texto em causa, gostaria de fazer alguns pequenos reparos.

    Neste post, não é referido que a noticia saiu também na edição impressa do Público. O é relevante para as questões apontadas.

    Como é facilmente confirmável pelo que no último par de anos tenho escrito no meu blogue, sou completamente favorável ao uso pleno das potencialidades do meio online.

    E, como também já afirmei algumas vezes, não creio haver qualquer razão para os jornalistas temerem a blogosfera - e, portanto, não há razões para que não refiram ou linkem para um blogue.

    A notícia em causa, porém, foi feita para a edição impressa e apenas mais tarde importada para a edição online.

    Vamos, então, por partes:

    - O link deveria existir na versão online?
    Sim. Mas a sua ausência trata-se de uma lacuna do processo de importação e não (como este post parece extrapolar) de uma qualquer intenção de menosprezar a blogosfera.

    - O endereço do blogue deveria constar do texto?
    Não necessariamente. Por várias razões (constrangimento de espaço, legibilidade e o próprio comprimento de linha de cada coluna da página) endereços Web nem sempre são fáceis de encaixar numa edição impressa.

    Penso ser absolutamente razoável presumir que o leitor do Público (e o leitor desta notícia em particular) conseguiria muito facilmente encontrar o blogue em causa apenas recorrendo ao nome referido no texto.

    O uso de motores de busca é omnipresente entre cibernautas e, para mais, o blogue em causa é o primeiro resultado para “zero de conduta” no líder Google.

    A este propósito, uma nota (que, sublinhe-se, não considero positiva): creio que a maioria dos sites portugueses de órgãos que têm uma presença extra-web estão muito, muito pouco dependentes do Google e demais motores de busca para manterem as suas visitas.

    A maioria (todos?) estão pouco ou nada interessados em técnicas de SEO e, em verdade, o seu tráfego não deverá ser significativamente afectado pela ausência de links.

    Lembremo-nos, a título de exemplo, de quando o Público “fechou” a versão online da edição impressa e dos links que terá perdido por causa disso.

    No entanto, um aspecto positivo desta relativamente grande independência face aos motores de busca é que a “marca” (e a garantia de qualidade/credibilidade que lhe está associada) ainda tem valor no profuso meio informativo online.

  6. António Dias a August 18th, 2007 17:48

    João,
    a presença do Público na internet é para mim um mistério insondável - desde o fecho e reabertura da edição online, os fóruns, passando pelos blogs no blogspot e pelo layout do digital… aliás se há coisa que fazem no digital é linkar.

    Eu vi apenas a peça online, notei o nome do autor e estranhei que não houvesse sequer a url. Discordo quando dizes que a url não é necessária na edição em papel, apenas porque o blog pode ser acedido directamente pelo google. É verdade, mas também transmite a ideia de que a informação no blogue pouco acrescenta ou que está no jornal, como se de uma pista se tratasse, quando na realidade só faltou ao Vasco entrevistar um responsável.

    A segunda razão para incluir a url é a de que uma percentagem de leitores teria provavelmente visitado o blog se a morada estivesse na edição de papel e terá deixado de o fazer perante a perspectiva de ter de procurar o endereço.

    A terceira razão é uma questão de marca/imagem do blog. Sempre dá uma certa aura de respeitabilidade ter o endereço do blog num jornal e não consigo pensar em muitas razões melhores do que esta para o fazer.

    A quarta razão é o teste do Abrupto/Causa Nossa/blog de personalidade: Se o texto fosse publicado por alguém com um perfil público, estaria a url no texto? ;)
    Qual é a prática na instituição?

    E, como também já afirmei algumas vezes, não creio haver qualquer razão para os jornalistas temerem a blogosfera - e, portanto, não há razões para que não refiram ou linkem para um blogue.

    Penso que aqui está em causa o “dna” de muitas redacções, em que por vezes se fazem contorcionismos ridículos para não citar a concorrência, fazendo-o apenas em casos de necessidade absoluta e se possível como nota de rodapé. Julgo que o conceito de stickiness (em sites) que li recentemente no teu blog é um subproduto desta forma de agir.
    Não me parece grande prática mas se todos na indústria o fazem então é “Fair Game”.
    Os blogs levam por tabela o que é completamente desmerecido porque não só não concorrem com os jornais como normalmente jogam limpo e citam as fontes.
    humm… Releio o título da submissão ao domelhor [comentário em cima] e talvez esta seja um pouco “exagerada”…

    Quanto aos efeitos de uma campanha nofollow aos jornais ela poderá ter impacto sobre as marcas dos jornais, mais do que causar dores de cabeça aos responsáveis pelos sites. Mais cedo ou mais tarde os jornais hão-de dar conta da necessidade de boas práticas de acessibilidade para os motores de busca, práticas essas que em nada beliscam a credibilidade das suas marcas.

  7. António Dias a August 18th, 2007 17:53

    JPG,
    também não me parece que faça muito sentido incluir a url completa num meio offline, quando a história pode ser lida na página principal - com o tempo passará para os arquivos mas nessa altura também os jornais e telejornais estarão arquivados.

    A propósito de direitos de autor, está aqui em baixo no rodapé um link “Alguns direitos reservados“.

  8. Wikipédia [ IV ] a August 18th, 2007 18:12

    [...] António Dias, no Marketing de Busca [...]

  9. Guerra chega a Portugal? : doispontocinco a August 18th, 2007 19:00

    [...] António fez uma análise sobre a cobertura dada pelos jornais a uma notícia que surgiu a partir de um Blog. Trata-se da alteração da biografia do primeiro ministro português, José Sócrates, por alguém [...]

  10. João Pedro Pereira a August 18th, 2007 19:38

    António,

    Breves notas:

    Penso que a atribuição do mérito da descoberta ao Zero de Conduta é inequívoca na leitura da notícia. Acrescentar a URL não alteraria isso.

    Um blogue não se torna mais ou menos respeitável por ter a URL por acréscimo ao nome. Penso que o que conta é o órgão reconhecer o mérito do trabalho do blogue, como foi o caso.

    E não, nestas circunstâncias o Abrupto ou o Causa Nossa também não teriam direito a URL.

  11. Paulo Querido a August 19th, 2007 0:46

    Boa malha, António ;)

    Umas coisitas:
    não direi que é irrelevante, mas a minha longa experiência de publicar endereços no papel demonstra-me que está lá perto. Neste ponto, defendo o João Pedro e o Público. Não tenho nada contra publicar, atenção: estou apenas a dizer que é do ponto de vista do que interessa ao mencionado, estar lá o endereço é praticamente o mesmo que não estar.
    Quando se cita um jornal ou uma televisão, não se coloca o endereço físico nem o quiosque onde o jornal pode ser comprado.
    É claro que

    Na edição online, sim, o link é em regra obrigatório — até deontologicamente, se querem a minha opinião. Considero ser um dever incluir o link SEMPRE QUE, como era o caso, a fonte em causa tem um papel importante na notícia (considero facultativo o link quando se esteja a mencionar um blogue ou pessoa de passagem, ou secundariamente; sou dos que acha inestético e quase irritante um texto cheio de links que nada acrescentam, é demasiado ruído e acaba por desencorajar os olhos e desviar a atenção tanto do post como de algum link realmente significativo no texto).
    No entanto, e conhecendo as “qualidades” de alguns motores editoriais de jornais, dou o benefício da dúvida ao João Pedro neste caso.

    Esta é uma guerra antiga (pelo menos para mim…) e folgo muito em ver novos cavaleiros a travá-la. Espero ainda um dia ver as edições online dos jornais, radios e televisões portuguesas usarem o hipertexto, essa coisa básica que é o sangue da web.

    Já agora :) vou responder à tua pergunta, António: fico na dúvida se conta, porque não escrevi propriamente uma peça na parte editorial do Expresso online mas sim na zona de opinião também intitulada de blogue, mas o meu texto sobre este assunto contém os links que considerei certos: o post inicial do zero de conduta (um bom trabalho de oposição política ao Governo, que fez corar de inveja alguns dos oposicionistas só de língua), o post magnífico do Pedro Fonseca (que relativiza e recentra o assunto: a wikipedia é de edição livre, remember?), a ficha de José Sócrates na Wikipédia, Virgil e o seu WikiScanner com particular atenção à FAQ, citada e “linkada” duas vezes. Tudo sem no follow — que no Expresso, no entanto, é colocado nos comentários. É este,
    José Sócrates e a Wikipedia: mais factos e questões.

  12. Paulo Querido a August 19th, 2007 0:51

    Malditas interrupções, deixei um parágrafo pendurado.
    É claro que, dizia eu, ao citar da web temos os mesmos problemas: se é uma marca conhecida, como o Expresso ou o Causa nossa, basta citar a marca, mas se citamos A Avezinha, convém dizer que se publica no Algarve, em Paderne. Isso não fará ninguém ir a correr comprar A Avezinha.
    Desta vez, a marca pelo menos foi citada pelos meios. Já foi um avanço.

  13. António Dias a August 19th, 2007 1:00

    Eu tenho um rascunho a sair com a faq do Virgil…

    (tinha que dizer isto antes que me tentem dar do meu próprio remédio e me acusem de plagiar o Paulo Querido :-) )

  14. António Dias a August 19th, 2007 1:17

    Eu ainda passei pelo Expresso mas não vi notícia sobre o assunto e achei melhor restringir-me aos que estavam ligados no GoogleNews (havia também um esquerda.net com o logo do BE e um outro digital). No Sol descobri um resumo com um link para o site selfseo :-) como recurso para os IPs, quando o Vasco, creio, tinha recursos listados no artigo. No JN e ao que parece na Sic, os crédulos descobriram qua a página do PM foi pirateado A “reposição da verdade” foi feita a partir do Governo hihih..

    Eu também sou sensível aos argumentos do João mas continuo na minha de que a url do blog deveria ser citada em papel. Mais do que fonte o artigo do Vasco é neste caso um excelente recurso e até complemento ao que é publicado nos jornais. Gostava de conhecer resultados de experiências, inclino-me a acreditar que uma url possa funcionar como uma recomendação à visita: o endereço é este, faça favor

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  23. Público pisca o olho aos blogs - Marketing de Busca a March 24th, 2008 18:55

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